"Não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas escondidas nele?"
-O Guia do Mochileiro das Galáxias - Douglas Adams (1952-2001)
Aparentemente o conselho é bom e
no mínimo é cheio de boas intenções. Contudo, merece um olhar mais crítico. (O
que seria de mim enquanto professor de Filosofia se não causasse esse tipo de
inquietação? Rs)
Geralmente este conselho de “Estudar
para ser alguém na vida” é direcionado ao jovem que está começando a ter alguma
consciência da vida. Mas todos nós inclusive este jovem, já não somos alguém na
vida?
Então como “estudar para ser
alguém na vida?” A ideia é ser alguém especial? Realizada e bem sucedido?
No sentido material
provavelmente, mas o estudo pode não garantir essa realização financeira e a realidade
esfrega isso na nossa cara o tempo todo. E mesmo que o indivíduo consiga essa
estabilidade material na vida, nada garante que isso esteja vinculado à uma
satisfação existência, ou seja, à felicidade.
O estudo pode sim te realizar, em
um sentido existencial, o financeiro pode até ser uma consequência. Talvez essa
perspectiva que deveria ser focada, de que o conhecimento pode nos enriquecer
enquanto seres humanos melhores.
Para esse conselho ser válido e
não apenas mais uma frustração na vida das pessoas, deve-se compreender que a
verdadeira realização das criaturas humanas, está no conhecimento.Afinal, bem sabemos que praticamente todos os
males dessa existência, são fruto da ignorância do ser humano, para com a
natureza, para uns com os outros e para consigo mesmo.
Saudações! Nada mais propício que nessa data em que celebramos o dia das mulheres, falemos aqui sobre estas dentro da história da Filosofia. Houve muitas delas, mas por razões culturais que podemos imaginar, não tiveram o destaque que mereciam.
Fala-se tanto em Sócrates (Reconhecido por muitos como o “pai da Filosofia”), mas sabia que ele teve duas professoras? Diotima e Aspacia! O que pode ter tudo a ver com a ideia de Sócrates (filho de uma parteira) de que a filosofia ajuda a “parir” as ideias ou a “verdade”, nomeando seu método de “Maiêutica” (parto).
Embora a discriminação sofrida pelas mulheres na história da Filosofia seja notável, algumas se destacaram pela busca da sabedoria e trilharam inclusive, os passos da ciência.
Mas por que ouvimos tão pouco delas? Eis a reflexão que quero lhes deixar ...
Se há algo frágil, definitivamente é o ego masculino em relação a sexualidade. Mas isso é uma construção cultural.
Desde de criança, o
rapaz é cativado a ser macho, já lhe é imbuída a necessidade de ostentar a
macheza, ele tem que demonstrar interesse no sexo oposto, ser forte, não
chorar, etc. Crianças são crianças, haverá muito tempo para elas se
descobrirem, mas por que os adultos as sexualizam? Por que a necessidade de
arranjar a namoradinha do filho quando ele nem sabe falar ainda?
Lembro me que passei
parte da minha vida juvenil conflitando com a masculinidade tóxica, se uma
menina tivesse interesse em mim, eu tinha que ficar com ela, mesmo que não fosse recíproco, pelo simples fato de que os demais meninos não iriam entender que eu
não queria por não gostar dela, mas iriam interpretar aquilo como “viadagem” ou
seja, se eu não ficar com a moça é porque eu era gay.
E se hoje em dia ainda
há preconceito sexual, bem sabemos que era muito pior no passado, ao ponto de
que quem era homossexual dificilmente se assumia como tal, com receio de encarar
a sociedade com os seus bons e velhos valores. Logo, ser taxado de homossexual
estruturou-se como uma das ofensas mais serias que se pode fazer a um homem.
E assim a gente cresce,
com a necessidade de provar que somos machos! Se passa uma mulher na minha
frente, eu tenho que olhar e talvez até mexer para mostrar para o meus amigos
que eu gosto daquilo ali. Ostentar quantas “peguei” e o que fiz com elas é
padronizado como atitude comum de macho e se você não o faz, é por que com
certeza você é gay ...
Falando assim, fica
fácil perceber o quanto idiota isso parece não é mesmo? Mas está aí, você sabe,
você testemunha, ou na pior da hipóteses, pratica.
Podemos desenvolver
duas reflexões nessa linha: A primeira é que a cobrança da masculinidade
definitivamente não é saudável, para começar porque ele inferioriza a mulher
como um objeto, rotula o conceito do que é ser e como deve agir o homem levando
a ideias estúpidas como: Pensar em amor e sentimentos é coisa de mulher ou de
“maricas”, homem pensa é em sexo! E isso se reflete na sociedade, não do jeito
que o conservadores gostariam, de homem na liderança provendo o lar e
estruturando a família. Mas como famílias desestruturadas, mães solteiras
porque o homem tem que pegar todas, casamentos falidos pela infidelidade de
corrente da ideia de que homem pode fazer isso, de que é comum e normal, homens
que são gays, mas vivem mentiras, Feminicídio! Podemos levantar vários
contextos infelizes que podem ou estão relacionados com o simples fato de
existir toda uma cultura voltada para a masculinidade tóxica.
A segunda, é que: E se
eu fosse homossexual? O que isso importaria? O que isso faria de diferença na
sua vida? Por que encarar a orientação sexual de alguém como motivo de ofensa? Se
alguém me confunde ou supõe que eu seja homossexual, isso não é motivo para eu
me ofender.
Mas a masculinidade tóxica
está ai, ela promove o preconceito, a partir do momento que o homem não pode
aceitar a homossexualidade, ele a antagoniza, sente a necessidade de agredi-la
para provar-se macho.
O que nos leva a
movimentos completamente imbecis como “Orgulho de ser hétero”.
Toda vez que me
deparo com sujeitos nessa linha me vem à cabeça que: É um desafio tão grande
assim ser hétero para o indivíduo que ele deve orgulhar-se? Eu vejo como se o
sujeito orgulha-se de vencer o impulso íntimo de querer se atracar com o amigo
malhado da academia ...
Ser hétero não é motivo de orgulho para mim,
simplesmente por não haver dificuldade nenhuma em me assumir como tal, agora
ser gay e encarar todas as consequências e preconceitos que a vida vai trazer,
esse sim tem que ter orgulho ...
Devido ao desgaste mental que senti diante de
constantes debates nas redes sociais, resolvi dar um tempo, continuei olhando,
curtindo uma coisa ali outra aqui, mas diminui radicalmente a minha atividade
online (Mesmo porque, o trabalho me obrigando a estar online frequentemente me
deu um sentimento de sobrecarga).
Eu me deleguei a tarefa de combater mentiras e
desinformação (reflexo do meu ofício como professor de filosofia) mas me senti
cansado, os debates políticos e ideológicos se estenderam aos contextos mais
diferenciados. Até em fóruns de jogos de vídeo game, temos debates sobre
“lacração”, “mimimi” e politicamente correto.
Um jogo com protagonista lésbica é acusando de
querer “lacrar”, Quando você joga, vê que a orientação sexual da personagem
não faz diferença alguma, Contudo, mesmo explicando isso para alguém de fora,
ela insiste na crítica ...
O mesmo acontece em assuntos de imensa
importância na atualidade como a Pandemia, as discussões se tornaram
irrelevantes ao passo que um grupo de pessoas está disposta a negar toda a
realidade (a ciência, os fatos etc) para insistir em uma agenda ideológica,
como?
Você está diante de um fato, mas se agenda
ideológica de um indivíduo o condiciona a não aceitar esse fato, ele passa a
militar contra aquilo, disseminando mentiras (fakenews) e desinformação,
geralmente com a ironia e deboche dos famosos “memes”.
Você
pode desmascarar o argumento, a mentira etc, que vai se deparar com uma nova
postagem falando a mesma coisa. Tudo isso se torna extremamente cansativo, essa
luta contra a cegueira que é o viés de confirmação (Tendência de aceitar e
acreditar somente naquilo que reafirma suas crenças iniciais, um erro de
raciocínio indutivo).
E
assim, eu dei um tempo, o que me levou a viver novamente o fenômeno do “Fear of Missing Out”, que eu desconhecida mas já deduzia. Pode
ser traduzido como “medo de estar perdendo algo” é o sentimento de estar
alienado e perdido por não estar participando da vida conectada das redes.
Se eu não posto nada, os algoritmos das redes
me deixam de lado, (Isso já acontece no esquema de bolhas sociais) o que me
levou a questão filosófica do “sentimento de não existir” por não estar ativo
nas redes.
As pessoas desejam feliz aniversario porque as
redes as lembram, mas não necessariamente porque a pessoa se importa, daí ser
muito comum pessoas postarem contagem regressiva e “parabéns para mim”
invocando a atenção, o sentimento de existir e estar conectado, uma carência existencial
triste que pelo visto é mais uma faceta dos imensos prejuízos psicológicos que
celulares e as redes sócias desencadearam.
Veja que as pessoas tendem a ser bem mais ativas
quando estão solteiras, mas ao passo que entram em um relacionamento, diminuem
sua atividade online pois passou a ter atenção particular? Impressão minha?
Se
outrora as pessoas já lutavam para criar uma identidade, se sentirem vivas,
especiais, diferentes. Hoje em dia podemos dizer que houve um “upgrate” das
crises existenciais. Afinal, percebe-se que essa geração está marcada por
crises de ansiedade, depressão etc, e se cada vez mais, estamos dependentes
dessas mesmas redes para trabalho e o dia a dia, como se curar?
Sugestão
de filme: Into the wild (Brasil: Na Natureza
Selvagem)
Sobre os
desfechos negativos dessa tecnologia toda, vejam:
Todo mundo quer ser feliz, se
sentir realizado, pleno, contente com a própria existência. Tanto que
Aristóteles filósofo grego concluiu que toda ação humana aspira ao bem maior da
felicidade.
O “sentido da vida” é um tema recorrente
nas reflexões filosóficas, mas não precisa ir nos meios intelectuais ou eruditos
para se deparar com tal temática, ela está ai o tempo todo com você, comigo, a
cada decisão, nas mais simples como “O que fazer hoje?” ou as mais complexas: “o
que eu quero fazer da minha vida?”
Para Soren Kierkegaard (1813-1855), o ser humano está em
um dos “Estágios da vida” que explicam a nossa “angustia” e tem a solução, vejamos:
I - Vida
Estética: Simbolizado pelo “Dom Juan”, o estágio estético mostra o homem que
busca a máxima satisfação do presente, procurando tornar único cada instante,
abomina o monótono. Mas o “instante” é fugaz, levando ao tédio e ao desespero.
II – Vida
Ética: Contrapondo ao homem estético (Dom Juan), o homem ético é representado
pelo “Bom marido”, é aquele que escolhe o quer ser e se impõe disciplina para
tanto. Mas ser fiel, respeitoso etc. Ainda assim, não dá a paz de espírito,
apenas elimina alguns problemas mantendo o homem ainda com angustia, ou melhor,
“desesperado”.
III – Vida religiosa: somente o estágio religioso
dá ao homem o significado ultimo da existência. Ou seja, para Kierkegaard
somente na fé, com Deus você será feliz, mas você encontra pessoas que vão te
receitar justamente a ponderação da vida ética ou a intensidade da vida
estética ...
Mas será que a vida tem uma
receita de bolo? Uma resposta simples assim? Faça tal coisa e se realize!
Aquelas pessoas que eventualmente
criticam uma conduta tua, como não querer sair, ou não gostar de uma piscina
por exemplo, Essa pessoa é plenamente feliz para estar te dando esse conselho?
Digo isso pois certa vez, no
ultimo horário de aula de uma sexta feira a noite, um aluno me perguntou o que
eu ia fazer depois da aula. Afinal, “sextou”. Eu disse que só queria um banho e
jogar um vídeo game. Meu aluno disse que eu tinha que "viver " (risos)
Eu perguntei o que ele ia fazer
para “viver” e a resposta era beber com uns amigos na praça. Retruquei que, ele
ia estar feliz lá e eu feliz em casa e está tudo bem. Mas o que me impressionou nesse
caso, é que a pessoa em questão vive com crises existências, em depressão, mas
se sentiu com moral de me dizer o que eu devo fazer para “viver”.
O mesmo vale para a imagem em
questão (Tema dessa publicação) , por que alguém vai sentir pena da pessoa por ela não ter “vícios”? Do
ponto de vista de várias vertentes, “triste” é a pessoa depender de vícios para
se sentir pleno.
Uma coisa pode ser boa para você,
te fazer feliz, te dar paz, mas isso não significa que terá o mesmo efeito no
outro. Obviamente, você pode querer tentar repassar a sua ideia, mas será que
você está tão bem assim para ter moral de ditar alguma regra ou receita de bolo
da felicidade para o próximo, ao ponto de critica-lo?
Todo mundo sabe essa resposta ...
Então, Como ser feliz? Cada um tem que encontrar a sua
resposta ...
OK, o título já deve estar te
incomodando, afinal sempre fomos educados a respeitar o próximo, isso inclui
também a opinião do próximo. E realmente, devemos respeitar as pessoas e suas
opiniões. Contudo, há um limite para tal e gostaria que você me acompanhasse
nesse raciocínio ...
Não é de hoje, que há um
conflito e distinção sobre a "opinião" e “saber verdadeiro”. Os gregos antigos já
tinham e refletiam sobre essa dicotomia. Por volta do século V a.C, surgiu na
Grécia um grupo de pensadores que passaram a “comercializar a filosofia”, ou
seja, vendiam o “conhecimento”. A base para isso era o “relativismo”. Para eles
existia somente opiniões e nenhuma verdade absoluta.
Tal concepção faz sentido,
afinal, uma fruta é gostosa ou não? As pessoas vão ter opiniões diferentes
sobre isso, quem gosta ou não de daquela fruta, estará falando a verdade mesmo
que sejam ideias contrarias.
Mas se só existem opiniões,
então não há necessidade de buscar um “conhecimento verdadeiro”? Vejamos:
Mesmo entre os Sofistas, a
busca por um conhecimento mais profundo era incentivada. O mais famoso deles,
Protágoras (490/415 a.C), afirmava tal necessidade uma vez que mesmo não havendo uma “verdade
absoluta”, era necessário distinguir entre opiniões mais ou menos uteis,
“melhores” ou “piores”.
Então nos deparamos com a
questão: Nem toda opinião tem o mesmo valor, pois o que vai pesar no final das
contas é o grau de conhecimento do interlocutor. Como assim? Imagine que você
passe mal entre seus amigos, um é da área da saúde (enfermeiro, médico etc) o
outro é um mecânico inteligentíssimo, qual dos dois terá a opinião mais correta
sobre como proceder diante de seu mal-estar?
Bem sabemos que é aquele que
tem o conhecimento mais profundo da saúde nesse contexto. (Poderia acontecer,
mas seria muito pouco improvável que o mecânico tivesse uma solução mais
correta do que o médico).
Óbvio que não podemos
desvalorizar o conhecimento de ninguém, devemos sim respeitar a opinião das
pessoas, mas quando a opinião sem embasamento algum vai contra um saber mais
metódico, ela não tem poder. Quando uma opinião calcada em “achismos” faz
frente aos fatos ou dados concretos, ela não pode superar o que é “consistente”
com a realidade maior, no máximo, pode ser usada para questionamento e revisão.
(O termo Doxa vem do grego,
significa opinião ou simplesmente crença comum, ele se opõe à Episteme, que por
sua vez seria o conhecimento “verdadeiro” ou basicamente um conhecimento
metodológico, calcando e evidencias e até mesmo “demonstrável”).
Assim, Devemos compreender que o
mundo é mais do que eu acho ... O mundo não é o reflexo
só do que eu vejo.
Nós temos direito de ter opinião,
mas isso não deve ser limitado a invocar o “respeito” para permanecer no erro.
Sim! Eu posso estar errado na
minha opinião sobre um tema, cabe o debate honesto e a reflexão profunda para
rever isso. Eu não tenho que respeitar sua opinião se você está errado e se no
erro você fere ideologicamente ou fisicamente o outro. Ou vai me dizer que por
exemplo, “racismo” é uma opinião, portanto, a pessoa tem direito de ser
racista?
Questione as próprias convicções
...
Só assim melhoramos nossos
conceitos e poderemos ter uma opinião realmente válida das coisas.
Como professor eu sempre ensinei ao
meus educandos que deveriam questionar e terem uma postura crítica,
principalmente diante das informações da mídia em geral.
Aparentemente, nos últimos dias
deparei me com um surto sobre esse tema.A militância contra a TV ganhou força nas redes sociais e era para eu
estar muito contente com a postura “crítica” das pessoas certo?
Infelizmente não, pois não se
trata de uma “conscientização honesta”, mas pura e simplesmente manipulação de
massa (Dentro de sua bolha social os indivíduos são convocados a atacarem
qualquer ameaça às suas ideologias). As pessoas se mostram críticas à mídia
apenas quando ela contraria os seus “mitos”, as suas convicções e
principalmente seus políticos/bandidos de estimação.
Um exemplo simples disso, é
sátira ou parodia política. Desde que me entendo por gente, vejo programas de
TV onde aparecem atores imitando os presidentes, em uma ridicularização hilária
e com fundo de crítica social.
O engraçado era que todos riam e
continuam rindo ainda hoje com isso, exceto quando a piada é com o SEU político
de estimação, hipocrisia é o que chama?
Estamos diante de um dos eventos
mais marcantes dessa geração, uma olimpíada foi cancelada, Sabe qual foi o
outro evento que fez isso?Uma guerra
mundial! E as pessoas acham mesmo que a televisão não iriam abordar
incessantemente esse assunto? Inclusive no sentido de prevenção!
Se superarmos essa fase, com
certeza se deve ao esforço individual que cada um adotou (Pelo menos de quem
entendeu a gravidade do momento). A informação nos permitiu tomar medidas de
precaução.
Devemos ser críticos em relação à
informação, mas isso não pode ser tendencioso. Não adianta de nada ser crítico
só quando te convém ...
Caso contrário, você não está
livre da manipulação, é apenas extensão dela.